Eu devo ser retardada, só pode. Vi no site do Terra: levantador de peso húngaro sofre uma chocante lesão. Mongolmente cliquei para ver o vídeo. Não deveria. Não deveria. De fato, chocante, e até que ponto, ATÉ QUE PONTO, fiquei matutando, essa competição de quem consegue levantar mais peso (e isso não é quem é mais forte), até que ponto, repito, isso é esporte? Fui almoçar, lembrei da cena e fiquei enjoada. E hoje preciso comer muito, muito. Pra depois ficar tranqüilamente 2 horas sem comer nem beber água. Tudo por uma ressonância magnética. Jah bless? Hope so. Não recomendo o vídeo do húngaro, cambada. Não mesmo.
Nome da rua do meu hotel no México. Amado nervo, stay with me and I'll set you free.
Outro dia eu soube que a Gisele Bündchen deu de presente de aniversário para o namorado, adivinhem:
Um carro? Uma passagem para Polinésia Francesa? Um dia na Disney?
Na na ni na não. Ela presenteou o amado com fotos dela!
Pausa para muitas exclamações:
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Ooooi?
Na boa, ééécati. Com dinheiro pra limpar a bunda, ela dá fotos de si mesma para o namorado?
Eu que nem tenho conta bancária achei maravilhoso dari um vôo de asa delta para o amor no dia que completasse mais anos.
Envelope amarelado com cheiro naftalinoso encontrado. Rosa vibrando por dentro, mas muito serena fisicamente e com alguma vergonha dos netos que a olhavam curiosa com tanta excitação por conta de uma carta. “Uma carta, vó?”, incrédulos com o poder do papel. Óculos encontrados, abajur bem posicionado, coração na mão, começa:
Cachoeiro de Itapemirim, 8 de fevereiro de 1969
Querida e estimada Rosa,
É com muita alegria que lhe escrevo essa carta. Primeiramente porque acabei de receber a sua. E confesso que mal acabei de ler, já quis logo respondê-la. Minha alegria está assim, um tanto atiçada pois acabei de comprar minha passagem para o Rio de Janeiro no carnaval. Hospedarei-me na casa de tia Carlinha, não sei se chegou a conhecê-la. Minha tia é muito agradável, coração generoso, e serve a melhor torta de limão do Universo. Mora logo ali, no Rio Comprido. Rosa, e agora pergunto além da ansiedade que já me é comum: você ficará no Rio durante o carnaval, não? Torço para que sim. Imagino a cidade em polvorosa. Está certo que os noticiários aumentam um pouco, e as revistas só mostram as belezas, mas realmente visualizo um grande espetáculo. Não sei como é o esquema de ver as escolas, se for muito caro, tudo bem. Só de ter sua companhia ao meu lado, já ficarei bastante feliz. Sua breve, porém intensa, vinda ao Espírito Santo deixou marcas em todos nós. Como vai você? Tenho estudado bastante, preciso aproveitar todo esse gás inicial e tentar mantê-lo ao longo do ano. Assisti a um filme inacreditável ontem: “A primeira noite de um homem”. Teor interessante para todas as idades, mas principalmente para rapazes. Você deve gostar muito da trilha sonora. Vou ver se consigo adquirir o LP. Gostei imensamente de sua carta, você tem uma narrativa estilosa, Rosa. Os mestres não te repreendem na escola? Ou lá é diferente? Conte-me da vista da janela do seu quarto. Fiquei aqui, do meu mundo capixaba, bem curioso para saber o que você vê da sua janela. Responda-me logo, por favor.
OBS: Proponho um encontro (se você for estar aí, claro) na porta do Odeon, na Cinelândia. Poderíamos curtir algum bloco, que minha tia já me disse maravilhas e depois um cinema. Ou eles fecham no carnaval?
Um forte abraço,
Humberto.
Olhos a ponto de transbordar, os netos impacientes com seus “o que é, vó, o que é?”, as mãos pingando um suor inédito até então. Achou de bom grado não falar nada e já abrir duas folhas dobradas que estavam acopladas com um elástico amarelo. Riu da sua letra de rascunho.
Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1969
Caríssimo Humberto,
Quase te mandei um telegrama, mas achei pouco pessoal, e assim, receosa de ser má interpretada, acabei resolvendo escrever uma carta, de fato. Muito me alegra que você venha para o Rio de Janeiro no carnaval. Não sei sobre o cinema estar aberto ou não, posso verificar. O que acha de sábado às 14 horas na frente do Odeon? Podemos curtir os blocos do centro e você ainda verá a arquitetura da cidade, belíssima nessa área. Humberto, querido, também não deixe de ir à Praça Mauá (não sei poderei te levar lá, ainda não sei os planos de papai para o carnaval, só sei que sábado ainda estarei aqui) e tente ver as escolas, mesmo que sejam as do grupo de acesso. A Apoteose tem uma beleza muito particular. E todo aquele burburinho antes de entrar, a concentração do lado de fora, as fantasias das cores mais diversas. Belíssimo. Só pude comparecer uma vez, há dois anos. Papai ganhou uns convites de um amigo, e fomos todos daqui de casa, inclusive meu irmão Antônio que não pára de crescer. Humberto, da minha janela vejo um trecho do céu, que hoje está azul celeste, uma árvore já centenária que insiste em levantar raízes e destruir a calçada da vizinhança (acho que em breve, terão que sacrificá-la, não gosto de imaginar essa ausência de sombra). Não é nada demais essa visão da minha janela, mas tendo me acompanhando há tempos, tenho um eterno carinho pelo que me é concedido. Nos falamos. Aproveite minha cidade, um tanto quanto caótica, mas muito convidativa por essas épocas. Um beijo carinhoso, Rosa.
Te encontro no sábado?
Permaneceu sentada, em delírio profundo e solitário. Lembrou da vila onde morava, da vizinha que só ouvia música francesa, das oito horas no ônibus até o Espírito Santo, da tontura que sentia vendo o calendário pendurado atrás da porta anunciando a chegada dos dias mais felizes de sua vida: o carnaval. Teve vontade de ser divorciada, de ter a lista telefônica capixaba, de ter pernas sem varizes, teve vontade de ainda ser “mil novecentos e alguma coisa”. Era fevereiro, o coração andava ligeiro e carregou seus 57 anos para observar a diversidade humana que passa na Banda de Ipanema. Enquanto dançava tímida, sente um cutucão de um senhor, desses que não se pode dizer que é gordo, mas também não é magro. O homem com cara de exclamação eterna: “Rosa? Rosa! Sou eu, Humberto!”. O bico do peito esquerdo sinalizou o tesão guardado. Abraçaram-se suados e curiosos.
“Conto ou não conto que fiquei 6 horas esperando por ela na porta do Odeon?”.
- Quanto tempo, Rosa!
“Digo ou não digo que eu fiquei 6 horas vendo ele me esperar no Odeon, escondida na banca de jornal só pra ver quanto tempo ele poderia me esperar?”
- Muito tempo, Humberto. Muito.
Conversaram pouco e voltaram para seus clãs rapidamente. Na volta pra casa, sem ao menos saber dessa coincidência, cantarolaram a mesma canção em seus respectivos carros. “E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar, cantando coisas de amor...” Sempre que passa em frente ao Odeon, Rosa soluça seis vezes.