Eu gosto quando falta pouco pra chegar em casa. E os últimos sinais de trânsito me enchem de esperança, de quem tem ovo e pão na cozinha. Como se eu estivesse apertada, caganeira súbita ou xixi além da bexiga. Vai dando meu terreno, e eu vou ficando feliz demais, reconhecendo cada paralelepípedo e acalmando o urso domesticado que me habita.
tem tempo já. eu fui ao odeon pela primeira vez e pensei "meu deus, existe um lugar". aquilo ali tinha cheiro do além-palco. um lustre espetacular que me enfeitiçava. nem lembro do filme que vi! eu lembro do gigantismo e da minha carência saudosa pelos cinemas de rua (sou da tijuca, terra mãe dos lindos cinemas na conde de bonfim). anos mais tarde vi minha cara no telão do odeon, no curta da minha amiga natércia. foi engraçado ver minha fuça ali. ampliada. depois, foi a vez do curta da poliana sobre quem canta em karaokê e lá estava eu, mandando ver no buraco da lacraia, "killing me softly", meu carro chefe desse ambiente. e agora, amanhã, eu vou cantar ali. no odeon. na frente do telão. telão, aliás, que enquanto canto, deverá passar filmetes bacanas que eu e lucas criamos ao longo de nossa breve, porém intensa vida.
a vida é um bocado engraçada. deve ser a vigésima vez que escrevo isso. e a milésima que sinto.
quem quiser ir, tá mais do que convidado:
será que vou poder mandar o roberto com "quando-eu-estou-aqui-eu-vivo-esse-momento-lindo?"
minha cabeça me diverte e já não cabe nas lojas americanas. os ovos, de chocolate, são o teto, onde altos, são obrigados a andar encurvados. encurvada andei durante 4 dias, enquanto um verme de nome GIARDIA, passeava pelo meu intestino. estive no méxico ano passado e nunca mais minha barriga foi a mesma. sai do padrão "mulher-com-prisão-de-ventre-quando-viaja" e passei a ser mais assídua ao banheiro. de maneira estranha.
após forte dor, já imaginava um cálculo renal, fui fazer ultra som, onde a médica elogiou todos os meus orgãos. "que visícula bonita!" agradeci feliz e ela ainda chamou a médica residente novinha: "tem uma magra fazendo ultra som, vem aprender!" para um residente é melhor aprender com uma pessoa magra, os orgãos aparecem mais. agradeci, agradeci de novo, mas urrei "quedjábodedoréessaentão?" a médica então disse que o único orgão que não dá pra ver na ultra som é o intestino. voilá.
verme, verme, verme. coisa de criança, reflexo de um lapso em minha linda formação gastronômica patrocinada sempre por minha mãe, a mulher mais saudável do mundo. é tenebroso imaginar um troço ínfimo VIVO dentro de você. fui fazer reiki, acumputura, tomei remédios fortes, ganhei uma anemia de presente (resultado das mordidas que o verme dá no intestino, ui!), fiz ritual enquanto tomava banho, promessa, perdi show do kraft / head, andei corcunda tipo senhora de 98 anos tamanha dor.
agora já expulsei o bicho e já caminho como uma pessoa da minha idade. pra quem sempre achou que tinha barriga de avestruz e já se deliciou com camarões em espetinho na praia, tomei um baita susto. todo cuidado é pouco quando é o intestino, nosso segundo cérebro (será?) que está em cena.
Estou sempre querendo, mas quando é sem querer, me diverte. O amor é meu vizinho. É bom pela proximidade dos corpos e pela possibilidade de se caminhar até ele, sem precisar passar por um trânsito. Outro dia nos despedimos, ele estava indo passar o som, e eu tinha que ir num lan house, resolver um galho, um pepino. Enquanto voltava a pé pra casa, fazia calor no meio dos peitos, avistei a banca de jornal e iniciei o pensamento de “comprar mais palavras cruzadas”. Vó Régia e vó Marphisa sempre fizeram, fazem até hoje, são rainhas do vocabulário, ainda que um vocabulário morto, mas admiro, acho sábio. Esporadicamente fazia, agora estou na fase viciadinha. Sou uma não fumante, cheia de outros vícios em manter minha mão ou minha boca ocupadas. Faço nível médio que é onde consigo me achar um pouco inteligente. Até a banca seriam ainda muitos passos e o cérebro virou um grande jogo de palavras cruzadas, pois assim funciona meu cérebro: sou irrigada pelo que está por vir. Quando criança, ao saber de passeio escolar, passava a noite em claro, vislumbrando-me num grande acontecimento. Não confundir com ansiedade, eu apenas começo a viver o estado, mesmo antes do físico se tornar real. Se já está na minha cabeça, existe desde então. Então, caminhando num nível médio, pela Conde de Bonfim, vejo uma silhueta conhecida. É meu namorado. 5 letras: L U C A S. Como comecei, estou sempre querendo vê-lo, mas quando é assim, ao acaso, numa surpresa, acho tão engraçado. Acho muito engraçado. E quando digo engraçado não penso em Jim Carey, penso em graça. É com muita graça que o encontro assim, sem combinar (como são todos os encontros de namorados, combinados), meu namorado na rua. Ele usa uma mochila pesada, hoje vai tocar. Tem uma cor bonita, a barba cresce ruiva, a careca se anuncia de maneira suave e familiar. Ele é demasiadamente lindo. Mais sagaz do que eu, ele já havia me visto, e isso acho tão delicado. O voyeurismo amoroso sem o consentimento de um. Qual a cara que eu fazia? Eu andava desengonçada? Eu olhei para um rapaz bonito que conversava com um amigo? Eu estava cutucando uma melequinha? Para brincar, ele quis fingir um esbarrão. Olhou para cima, e começou a assoviar, tipo um desenho animado. Mas não sou tão distraída assim, deixo isso para minha mãe, que volta e meia, após o reiki, volta pra casa de ônibus e o Lucas senta ao lado dela, e ela nem percebe, tamanho estado alfabetagama onde se encontra. Já havíamos nos visto aquele dia, e nos veríamos dentro de duas horas, mas aquele minuto de susto, de esbarrão, de sorte, de destino, de coincidência, de besteira (afinal, somos vizinhos), me deixou mais apaixonada ainda. Dei tchau, e por algum tempo, fiquei admirando a beleza daquele que me é mais caro, indo embora. Parei na banca, Coquetel nível médio. Primeira página. “O príncipe encantado de Ariel, em A pequena sereia” (Cin.) Sei que é Eric, mas cabe Lucas?